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Crítica: As Aventuras de Pi

Uma linda história de um menino e seu tigre que enche os olhos, mas precisa ser assistida com o coração

por Thiago Miota

Com uma boa dose de expectativa tardia, entrei pelo cinema atento. Pouco ouvi sobre o genial As Aventuras de Pi(Life of Pi, 2012, EUA, Indía). Analogias e simbolismos era o que esperava encontrar sem maiores pretensões. Mas o que eu não esperava, era saber que tal história fora na verdade inspirada(ou plagiada, para usar o termo da época) num livro de um escritor brasileiro, Moacyr Scliar, a quem tive o privilégio de conhecer por alguns minutos. Escritor de mão cheia, teve sua obra traduzida em diversos países, o que explica como chegou até o canadense Yann Martel. Nela, há um menino e um Jaguar, aqui um menino e um Tigre. Lá uma metáfora sobre a ditadura brasileira escrita durante a ditadura, aqui, uma metáfora sobre Deus e o sentido da vida. Claro que este fato diminui um pouco a obra, mas vamos no apegar ao diretor Ang Lee.

Aliás, sobre isso, fico feliz de saber que antes dele, por vários anos, outros diretores como M. Night Shyamalan, Alfonso Cuarón e Jean-Pierre Jeunet abandonaram o barco. Feliz, pois são todos diretores de uma nota só, como Shyamalan por O Sexto Sentido seguido de uma série de fracassos, Jean-Pierre Jeunet por O Fabuloso Destino de Amelie Poulin e Cuarón, mesmo que tenha realizado grandes filmes como 21 Gramas, sempre fala sobre dores e tragédias. A todos eles falta sensibilidade, algo que sobra em Lee. Para quem não lembra, é o diretor que fez o polêmico O Segredo de Brokeback Mountain, um Hulk filosófico demais e o lindo O Tigre e o Dragão.

Em As Aventuras de Pi, ele reúne todas essas virtudes e delicadezas, e com o foco certo, conta sua história sem deixar de aproveitar a melhor tecnologia possível. Resultado? Um 3D enxuto, sem cunho comercial, que emociona, pois não existem mais histórias assim no cinema. Há cada ano que passa, fica mais difícil ter liberdade criativa, o que engessa tudo. As correntes do lucro aprisionam os diretores, relegando a poucos a árdua tarefa de realizar algo diferente, sendo Ang Lee um destes privilegiados, parafraseando as palavras do próprio. E fico feliz de saber que As Aventuras de Pi fez um estrondoso sucesso pelo mundo.

Mas vamos a história. O filme começa numa conversa entre Pi Patel e um escritor, que bate a sua casa em busca de uma história. Pi não é um mero contador de histórias, sabe algumas, mas sua grande história está no seu passado, em sua trajetória de vida. Na primeira parte temos cenas singelas e engraçadas sobre sua juventude, a explicação para se chamar Pi, bem como sua busca pela verdade através das religiões para por fim abraçar o ceticismo da razão, mesmo que contrariado. Ele vivia com seus pais num zoológico, que por crueldade deste mundo selvagem, fez seu pai vender tudo para ir ao Ocidente, mais precisamente, o Canadá. Com a família a bordo de uma grande navio, o que Pi não esperava é que de uma noite para outra, perderia tudo. O navio afunda, e Pi se vê num barco apenas com um Tigre, o senhor Richard Parker.

Sua relação com o Tigre não é das melhores. Quando jovem, seu pai lhe ensinou que os animais não são como nós, não possuem sentimentos, apenas instintos de sobrevivência. Ou seja, estar diante da fera agora é mais mortal do que estar no mar. O que Pi terá de aprender é lidar com este medo se quiser sobreviver, para finalmente descobrir que seu pai não estava certo, e que afinal, talvez não sejamos tão diferentes dos animais quanto pensamos. Em outras palavras, ele também estava errado.

Há cenas que as palavras são incapazes de descrever dada tamanha beleza. É um verdadeiro privilégio sentar para assistir por pouco mais de duas horas um trabalho de fotografia praticamente impecável. O mais incrível é que grande parte das maravilhas foram criadas dentro de um estúdio, inclusive o tigre. São tão fiéis as criações que chegam a criar uma dúvida em nossa mente: será que aquilo de fato não é real?  É a ficção que se torna verdade, ou a verdade que se torna ficção?

Incrível, mas essa é a analogia do filme, presente em todas as cenas, explicada apenas no final, que dá uma reviravolta em todos os fatos. Foi nessa hora que me senti grato por entrar pelo cinema sem muito saber sobre As Aventuras de Pi. A história fora construída de uma maneira que te faz mergulhar profundamente, se emocionar com alegrias e tristezas, apreciar pequenos e grandes momentos.

Ao término de tudo, muita reflexão. Não acho que As Aventuras de Pi seja um filme de cunho religioso, apesar das muitas referências,  assim como também não acho que seja um filme para crianças como nos diz a classificação indicativa, pois não creio que nem mesmo um adulto, se não estiver bem intencionado,  será capaz de enxergar toda beleza dessa história. Será preciso rever duas, três e tantas outras vezes.

Ver com os olhos não é suficiente. Eis o grande triunfo de Ang Lee: tocar nosso coração.

Avaliação: Ótimo

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Publicado por

Miota

Empresário, professor e crítico de cinema

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